Em um contexto global marcado pela intensificação da crise da poluição plástica, as organizações da sociedade civil têm assumido um papel fundamental na conscientização sobre seus impactos ambientais, sociais e na saúde. No México, uma das vozes mais persistentes nessa luta é a da Fronteras Comunes, organização com mais de três décadas de experiência na defesa da justiça socioambiental e dos direitos humanos.
Para Marisa Jacott, socióloga e diretora da organização, a missão é clara e profundamente política: “Fronteras Comunes é uma organização dedicada à justiça e à defesa da terra, lutando para proteger a saúde humana e ambiental contra a poluição química, industrial e plástica. Trabalhamos por meio de advocacia, defesa dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais, pesquisa e denúncia de políticas públicas que permitem e promovem esse tipo de poluição.”
Desde a sua fundação em 1994, a Fronteras Comunes tem abordado a questão do plástico como parte de um sistema mais amplo de poluição estrutural, coordenando estratégias que envolvem litígios, pesquisas e trabalho comunitário. "Avançamos em várias das muitas frentes na luta contra o plástico por meio de redes, trabalho interdisciplinar e colaboração com movimentos sociais, cientistas e jornalismo ambiental", explica Jacott.
Uma luta contra o colonialismo do lixo plástico
Um dos pilares centrais do trabalho da Fronteras Comunes tem sido denunciar o chamado “colonialismo do lixo”: a transferência sistemática de resíduos de países industrializados para nações do Sul Global.
Após o fechamento das fronteiras da China para a importação de resíduos em 2018, países como o México começaram a receber volumes crescentes de lixo plástico, principalmente dos Estados Unidos. Para Jacott, esse fenômeno não pode ser compreendido apenas como um problema comercial: “A poluição plástica e o colonialismo tóxico não são apenas questões econômicas; são também questões de saúde. Afetam nossos corpos e territórios; é uma questão do presente, do aqui e agora, não do futuro.”
Jacott observa que, nas últimas duas décadas, o México importou pelo menos 1.26 milhão de toneladas de resíduos plásticos, principalmente dos Estados Unidos, o que evidencia a magnitude do problema. Essa dinâmica, segundo ele, é sustentada por narrativas enganosas: “Soluções falsas são promovidas sob o pretexto da economia circular, com processos de 'valorização' e reciclagem tóxica que mascaram práticas de descarte ambientalmente descontrolado*”.
Para aumentar a conscientização sobre essa questão, a Fronteras Comunes, juntamente com outras organizações, está promovendo a México Tóxico plataforma, uma geovisualizador que documenta o fluxo de resíduos e seus impactos nas áreas locais. "Nosso objetivo é mostrar como a poluição plástica está presente em todo o seu ciclo de vida: da extração de petróleo ao descarte e à importação em massa como lixo", explica ele.
Um precedente histórico: o processo amparo contra plásticos de uso único
A coordenação entre organizações também levou a avanços legais significativos. Um dos mais importantes é um Amparo venceu em 2024. que obriga o Congresso mexicano a legislar sobre plásticos de uso único.
O processo foi aberto por seis organizações em 2023, em resposta a tentativas de bloquear regulamentações locais, como as do estado de Oaxaca. A reação da indústria e de certos setores do governo estadual foi forte. "Enfrentamos forte oposição da indústria e apoio declarado de instituições governamentais para impedir a proibição", observa Jacott.
No entanto, embora a decisão tenha sido favorável, sua implementação ainda está pendente: "Ganhamos a causa em agosto de 2024, mas até hoje a decisão não foi cumprida, então continuamos trabalhando nisso."
O caso também ganhou relevância internacional. Durante uma visita recente ao México, o Relator Especial das Nações Unidas sobre substâncias tóxicas e direitos humanos, Marcos Orellana, Manifestou preocupação com as tentativas de contornar esta decisão de Amparo através da Lei Geral sobre a Economia Circular. Na sua perspectiva, tais estruturas só podem ser consideradas adequadas se garantirem a segurança química e não substituírem as obrigações de redução por soluções tecnológicas insuficientes.
Suas declarações ecoaram os alertas de organizações da sociedade civil, que apontaram que a lei não estabelece medidas claras para limitar a produção de plásticos descartáveis e abre caminho para processos como a pirólise, que são questionados por seus impactos na saúde e no meio ambiente.

O poder da ação coletiva
Ao longo da última década, o movimento Break Free From Plastic demonstrou que a coordenação global pode amplificar as lutas locais. Para a Fronteras Comunes, esse aspecto tem sido fundamental desde o início, em alianças como a GAIA, que mais tarde deu origem à própria BFFP. “A importância do trabalho em rede reside na capacidade de trabalhar e compartilhar — do nível local ao internacional — as questões que nos unem”, afirma Jacott. “O trabalho em rede nos nutre, permite-nos construir e reconstruir conexões para avançarmos e deve ser fundamentado na confiança, na transparência e em objetivos comuns.”
Essa coordenação possibilitou não apenas fortalecer capacidades, mas também impulsionar iniciativas concretas. Em 2022, organizações no México se reuniram para... primeiro encontro nacional da BFFP, que contou com a presença de representantes de 15 organizações da sociedade civil e duas instituições científicas e culminou em Declaração de XitlaA declaração exige a suspensão das importações de plásticos contaminados para o México, transparência quanto ao destino final desses materiais e respeito aos direitos dos catadores de materiais recicláveis. A declaração também pede o fortalecimento das leis que proíbem plásticos de uso único e a eliminação da legislação de todas as formas de incineração, coprocessamento, recuperação de energia ou tratamento térmico como alternativas para o gerenciamento de plásticos no México.
Para Jacott, o valor de pertencer a um movimento global é estratégico: “O BFFP nos dá força nos níveis local, nacional, regional e global. Ele nos ensinou o poder de ferramentas como auditorias de marca, o valor da ciência cidadã e a importância de expor a responsabilidade corporativa e desmascarar falsas soluções.”
Rumo a um Tratado Global sobre Plásticos
O trabalho dessas redes também se estende à negociação de um Tratado Global sobre Plásticos, um processo fundamental para o estabelecimento de regras vinculativas em nível internacional.
Jacott enfatiza que o tratado deve ir além de compromissos gerais: "Ele deve adotar uma abordagem de precaução, reduzir a produção de plástico, regulamentar substâncias tóxicas e impedir o comércio transfronteiriço de resíduos."
Entre os pontos críticos, ela destaca a necessidade de reconhecer os impactos do plástico ao longo de todo o seu ciclo de vida, estabelecer limites para plásticos de uso único e impedir que esses materiais continuem sendo considerados combustíveis ou insumos energéticos.
“O desafio é garantir que esses acordos sejam efetivamente implementados em países como o México, onde os compromissos internacionais muitas vezes não se traduzem em políticas públicas”, conclui ela.
Consciência coletiva e responsabilidade compartilhada
Nos últimos anos, a percepção pública sobre o plástico mudou. "De fato, existe uma maior conscientização coletiva e mais partes interessadas envolvidas, de diferentes perspectivas", observa Jacott.
No entanto, ele alerta que esse progresso coexiste com narrativas institucionais que promovem soluções insuficientes: “No México, essa conscientização está sendo minada por uma política estatal que promove a reciclagem industrial e energética do plástico”. Mesmo assim, ele destaca o papel de ferramentas como auditorias de marcas — mesmo em escala nacional — para demonstrar a responsabilidade das grandes corporações.
Para Jacott, o desafio continua sendo estrutural: abordar não apenas o consumo, mas também a produção, os produtos químicos associados e a gestão de resíduos como parte do mesmo sistema.
Fazendo um balanço pessoal, sua reflexão é contundente: “Jamais imaginei a dimensão da atual crise do plástico, sua natureza generalizada e tóxica, seus danos estruturais. Precisamos continuar construindo caminhos alternativos diante de um futuro que deixou de ser ficção.”
Dez anos após a BFFP, a mensagem de organizações como a Fronteras Comunes é clara: diante de uma crise global, a resposta ainda reside na coordenação, em evidências e na ação coletiva. E na convicção de que outro modelo — um em que a vida vem antes do plástico — não é apenas necessário, mas urgente.
*O termo "dumping ambiental" refere-se à transferência de resíduos ou poluentes de um país para outro, geralmente de países desenvolvidos para países em desenvolvimento, aproveitando-se de regulamentações ambientais mais brandas e custos de descarte mais baixos.





